Trinta Anos Numa Noite

A musa me sorri e eu simplesmente fico paralisado... Tudo isso ao som de Bee Gees... Ando um pouco, a música muda! Pergunto a um amigo: - Nossa! Que som é este? E ele replica: - Ah, vai dizer que não sabe? É Jonh Travolta!!!

Publicado em 10/02/2019 16:01:21

Trinta Anos Numa Noite

MARCO ROGÉRIO DUARTE

Hoje, amanhã, vai ser, um ontem pra esquecer. O trecho da música do grupo Egotrip, que fez sucesso em 1988 fala do tempo e de como a vida é fugaz. Esse tema me fascina desde o início dos anos 1970, quando não perdia um só episódio do seriado “O Túnel do Tempo”.

Porto Ferreira, dia 31 de março de 2007. Me transporto para este dia. No Porto Ferreira Futebol Clube a atração é “Edinho Santa Cruz” que está lançando seu CD “Na Estrada do Rock”, uma verdadeira obra-prima.

Mas se inicia o baile-show, e, aí, sim, começa a verdadeira viagem no tempo! Volto a 1977, quando tinha apenas 11 anos. Entrava no P.F.F.C. dizendo que já tinha feito catorze. E lá estava a banda “Edinho Show”, que depois mudou para “Santa Cruz”. Lá estava também a primeira musa, da qual nem me lembro o nome, mas sim dos seus olhos verdes e seu sorriso encantador. Mais velha que eu, mas ainda bem jovem...

O baile corre, as músicas rolam...e a paquera também...A musa me sorri e eu simplesmente fico paralisado... Tudo isso ao som de Bee Gees... Ando um pouco, a música muda! Pergunto a um amigo: - Nossa! Que som é este?  E ele replica: - Ah, vai dizer que não sabe? É Jonh Travolta!!!

Voltamos a 2007. Eu vi um menino correndo/Eu vi o tempo/ Brincando ao redor do caminho daquele menino/Eu pus os meus pés no riacho/E acho que nunca os tirei. A letra de “Força Estranha” parece resumir minha história. Pô, mas quem é que embranqueceu de repente os cabelos de todo mundo? Não fossem as madeixas recheadas de cãs e eu poderia jurar que estávamos no final dos anos 70...

Os velhos rocks tocados pelo Edinho e sua turma parecem a síntese de uma época em que o Brasil mudou. E mudou muito: de ditadura à democracia, da hiperinflação à estabilidade, das crises econômicas ao desemprego estrutural, o ritmo da vida também se deu em baladas, mas na maioria dos casos foi no som pesado. Assim também foi no resto do mundo. Seja na Guerra das Malvinas, na Queda do Muro de Berlim, no Fim da poderosa e temida União Soviética ou na explosão do World Trade Center...

No meio tudo parece surgir uma tela de cinema, como que do nada e começa a rodar um filme antigo. E lá estou eu na formatura do ginásio, fardado no Exército, na conclusão do colegial e...enfim, na Faculdade! E estou ainda bem magrinho na campanha de Antonio Palocci Filho a vereador de Ribeirão Preto em 1988... e na choradeira com a vitória de Collor e a primeira derrota de Lula em 1989. Quem diria que um dia Lula ia chegar ao Planalto e que teria o apoio de Collor e Maluf no Congresso?

Eis que assim como começou, o filme acaba. O Edinho toca rock, mas só consigo ouvir a trilha sonora do filme, com velhas músicas do Belchior, que parecem mais um inventário do que sobrou dos chamados “Anos de Chumbo”. Nunca mais seu pai falou/de meter o pé na estrada/ Like a Rolling Stone...

Mas o baile estava no fim. Ainda dá tempo de dançar  como uma valsa aquela música que o Freddy Mercury canta com uma soprano (Monserrat Caballero, se não me engano). Então, abracei forte minha futura esposa, chorei e constatei que aquela tinha sido a mais longa de todas das noites. Não porque “Amanhã vai ser outro dia” como profetizou Chico Buarque, mas porque tinham se passado três décadas... 

 

Marco Rogério Duarte  é jornalista

 

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