RÉQUIEM PARA MARX E FORD

Mesmo quando fazia oposição ao capitalismo, nos países ocidentais, o comunismo pensava em termos fordistas: propunha empresas nacionais gigantescas, luta política baseada em classes sociais homogêneas, e produção em série de produtos padronizados.

Publicado em 11/03/2019 20:13:10

RÉQUIEM PARA MARX E FORD
Ney Vilela é historiador e doutor em Comunicação Social

NEY VILELA 

O fordismo personificou o apogeu do capitalismo imperialista. Ao construir economias de escala, construindo uma estrutura produtiva de custo mínimo, o fordismo exigia – também – a existência de uma economia planejada. Ao organizar linhas de montagem, em que produtos homogêneos atenderiam demandas – igualmente homogêneas – dos consumidores, o fordismo interferia não só no chão da fábrica, mas invadia o lar e a vida íntima do trabalhador.


A produção seriada, em verdade, implica em normatizar o dia-a-dia do operário, no trabalho. Mas não é só isso: significa Lei Seca, puritanismo e a tentativa de regular a vida sexual e familiar do trabalhador. Sobre essa fase do capitalismo, o velho Gramsci dizia que “os novos métodos de trabalho são inseparáveis de um modo específico de viver, pensar e sentir”.

O que Gramsci não disse é que o marxismo-leninismo era o irmão-inimigo do fordismo. O planejamento do tipo soviético era uma aplicação do fordismo: Lênin recebeu de braços abertos Taylor e o cronômetro; a industrialização soviética baseou-se na construção de fábricas gigantescas, a maioria delas lastreada em tecnologia ocidental de produção em série; os burocratas soviéticos eram obcecados por quantidade, planejamento centralizado, supressão da variedade, autoritarismo gerencial.

Mesmo quando fazia oposição ao capitalismo, nos países ocidentais, o comunismo pensava em termos fordistas: propunha empresas nacionais gigantescas, luta política baseada em classes sociais homogêneas, e produção em série de produtos padronizados.

Nos últimos cinquenta anos, o mundo e o capitalismo mudaram. O surgimento do mercado global (graças às revoluções das comunicações e dos transportes) fez declinar o Estado-nação e as empresas nacionais. Temos, agora, flexibilização, dispersão e descentralização da produção. Exige-se especialização flexível, por parte dos trabalhadores, o que implica em maior tempo de instrução escolar. Os consumidores também mudaram: satisfeitas as necessidades básicas pela velha produção fordista, agora o consumidor tem gostos específicos, modulados por questões locais, de gênero, de raça e de tradições culturais. A desintegração das hierarquias, dentro das empresas, e a multiplicação do trabalho terceirizado, temporário ou em período parcial, acabaram por demolir as corporações sindicais e os partidos organizados por classe social.
O fordismo e o marxismo morreram.

Mas seus fantasmas e zumbis ainda aterrorizam o cotidiano do Brasil. O governo federal, eleito há poucos meses, é fordista: puritano, nacionalista e partidário da homogeneização cultural. De outro lado, temos uma oposição marxista que é gerencialmente autoritária, estatista, e que ainda imagina o mundo dividido entre proletários e burgueses.

Esse pessoal precisa se recolher aos seus sarcófagos.

O grande problema é que, ao invés de organizar um réquiem por esses defuntos, nossa sociedade teima em ressuscitá-los, nas eleições.

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