Piquenique de hienas

O sucesso da chantagem realizada pelas transportadoras deveu-se ao apoio de dois aliados surpreendentes: os reacionários de “direita” e os demagogos populistas de “esquerda”.

Publicado em 02/06/2018 13:38:29

 Piquenique de hienas

Ney Vilela 

Não houve greve de caminhoneiros. Numa greve, o pleito costumeiro é de aumentos salariais ou se busca a melhoria das condições de trabalho. Mas quando os objetivos de uma paralização são redução de impostos que oneram uma atividade produtiva, alteração de participação em editais, redução dos pedágios para determinados veículos e preço mínimo para serviços contratados, certamente o que está ocorrendo é um locaute. E locautes são proibidos por lei.

Como em nenhum momento se falou em aumentos salariais para os funcionários das transportadoras, os grandes empresários trataram de mascarar seus objetivos, trazendo para o debate alguns dos problemas enfrentados pelos caminhoneiros que trabalham por conta própria. Problemas gerados pelo desastroso governo de Dilma Rousseff, que se curvou ao interesse das montadoras de veículos, aumentando prazos e reduzindo juros para a compra de caminhões, com o objetivo de desovar estoques e – nas palavras confusas dela – “acelerar o crescimento”.

A desjeitosa interferência estatal provocou o crescimento de 40% da frota de caminhões, num período em que o crescimento do PIB foi de 11%. O resultado, óbvio, é que a oferta excessiva de serviço de transporte por caminhão redundou em redução do preço do frete. Com a crise econômica – outra “obra” de Dilma Rousseff – os fretes caíram ainda mais e os caminhoneiros ficaram impossibilitados de pagar as prestações dos caminhões que compraram.

Essas informações nos permitem concluir que os preços dos combustíveis não interferem no calvário dos caminhoneiros “conta própria”: se não estivessem endividados e se não houvesse oferta excessiva de serviços de transporte rodoviário, os aumentos de diesel poderiam ser incorporados, sem problemas, ao preço do frete. Mas o risco de inadimplência e a implacável lógica do mercado retiram a possibilidade de negociação.

 Voltemos ao locaute. O sucesso da chantagem realizada pelas transportadoras deveu-se ao apoio de dois aliados surpreendentes: os reacionários de “direita” e os demagogos populistas de “esquerda”.

A direita reacionária mirou dois objetivos: reduzir o tamanho do Estado, na economia, e estabelecer condições objetivas para um golpe contra a democracia. Reduzir impostos, em última análise, é o mesmo que retirar recursos para os investimentos sociais; é usar a máscara da indignação contra a corrupção para se eximir de contribuir para a manutenção da rede de proteção social. De quebra, tentou-se impedir que a reoneração das folhas de pagamento chegasse ao setor de transportes. No mais, a direita reacionária quer aplainar o caminho que pode levar o autoritarismo ao poder, usando a insatisfação popular contra o governo, como aríete.

A “esquerda”, age com o desespero que é o catalisador de sua tradicional irresponsabilidade. Depois de ver seus mentores intelectuais, Dirceu e Palocci, recolhidos às celas; depois de perder o poder federal a golpes de incompetência administrativa e oportunismo político; a esquerda vê-se órfã de seu arauto (que também é seu ídolo e arrimo), que se deixou levar pelos vícios burgueses de posse sobre sítios e vivendas de verão. Sem opções, apoia-se em um movimento pequeno-burguês (que o velho Marx sentenciou ser o mais reacionário dos grupos sociais), para tentar ressuscitar seus anjos caídos que mofam nas prisões.

O movimento das transportadoras e caminhoneiros é nauseabundo. Nele, as hienas fazem piquenique.

 

 

Fotos

Comentários

Últimas notícias

Página 1 de 137