O RESUMO DA ÓPERA -A águia, a crise do jornalismo e os Quixotes Pós-Modernos de Porto Ferreira

A verdade por trás das bravatas dos "herois da resistência" da imprensa escrita do interior paulista

Publicado em 02/06/2018 12:34:16

O RESUMO DA ÓPERA -A águia, a crise do jornalismo e os Quixotes Pós-Modernos de Porto Ferreira

 

Marco Rogério Duarte

A águia é a única ave que chega a viver 70 anos, você sabia? Mas para isso acontecer, por volta dos 40, ela precisa tomar uma séria e difícil decisão.

Suas unhas compridas e flexíveis a deixam com dificuldades para agarrar as presas das quais se alimenta. Seu bico, alongado e pontiagudo, curva-se. Envelhecida e pesada em função da espessura das penas, passa a ter dificuldades para voar.

Então, eis que, diante do cenário, conta com duas possibilidades: deixar as coisas como estão e então morrer, ou enfrentar um dolorido processo de renovação que se estenderá pelos próximos 150 dias.

Sendo esta sua decisão, a águia voa para o alto de uma montanha e recolhe-se em um ninho próximo a um paredão, onde não precisará voar. Aí, começa a bater com o bico na rocha até conseguir arrancá-lo. Depois, espera nascer um novo bico, com o qual vai arrancar as velhas unhas. Quando as novas começarem a nascer, ela passa a arrancar as velhas penas. Somente passados cinco meses ela poderá sair para o voo de renovação e viver os próximos 30 anos.

Falo desta velha parábola para comentar a crise do jornalismo impresso. O desenvolvimento recente de novas tecnologias de informação, principalmente a internet, abalou os jornais impressos. O papel de chegar à frente, de ser o primeiro a dar a notícia, no dia seguinte ao fato, está deixando de ser dos jornais neste início de século XXI, sendo ocupado, rapidamente, pela rede mundial de computadores, em que as publicações assumiram um caráter de instantaneidade. Não é mais preciso esperar amanhecer para correr à banca e saber os principais fatos do ontem. Na internet, os fatos são abordados ainda no hoje, poucos minutos depois de acontecerem.

O grande jornalista Ricardo Noblat afirma que “os jovens, principalmente eles, fogem da leitura de jornais e preferem informar-se por outros meios. Ou simplesmente não se informam. Uma fatia crescente deles adere à internet”.

O autor cita, ainda, que, já no final do século passado, entre 1997 e 2000, uma pesquisa feita nos Estados Unidos, pela Associação Americana de Jornais, com 4.003 pessoas adultas, mostrou, por exemplo, que, na faixa etária dos 18 aos 24 anos, 75% declararam que a internet mexia com sua imaginação. Em relação aos jornais, o índice apurado foi de 45%. No mesmo período, o uso da internet como fonte de informação cresceu 127% entre os norte-americanos, enquanto o consumo de jornais despencou 12% e a audiência dos telejornais, 14%. Para Noblat (2004), algumas explicações para a crise que os jornais atravessam são possíveis.

Os leitores acham que o cardápio de assuntos dos jornais está mais de acordo com o gosto dos jornalistas do que com o gosto deles. E que a visão que os jornalistas têm da vida é muito diferente da visão que eles têm. Nada disso, porém, parece abalar os jornalistas e donos de jornal. Eles se comportam como se soubessem, mais do que os leitores, o que estes querem, têm a obrigação de querer ou devem deixar de querer.

Na obra A arte de fazer um jornal diário, Noblat (2004) lembra uma passagem ocorrida em 2002 para ilustrar esta teoria. Naquele ano, Dick Brass, um executivo americano empregado do todo-poderoso dono da Microsoft, Bill Gates, previu que a última edição do New York Times, considerado o mais influente jornal do mundo, circularia em 2018. O resultado da declaração foi uma reação de desdém da direção do New York Times. “Vamos continuar como a principal fonte de notícias e informações dos Estados Unidos. E talvez do mundo”, disse, na época, Arthur Sulzberg Jr, o principal diretor do jornal.

Sete anos depois, porém, na edição de 29 de abril de 2009, uma das principais revistas brasileiras, a Veja, trouxe uma reportagem intitulada “Inferno na Torre do Times”, cujo assunto era, exatamente, a crise enfrentada pelo New York Times, classificado pela revista como “Bíblia do Jornalismo Americano”. Segundo a referida edição da Veja (p. 90), o jornal está “sufocado por dívidas, pela recessão e pela internet – e, se falir, poderá marcar o começo de uma era perturbadora na qual os jornais seriam irrelevantes”.

O principal assunto da reportagem da revista era uma notícia que havia sido veiculada, dias antes, na página 6 do caderno de economia do próprio Times, em que o grupo proprietário do jornal declarava ter acumulado um prejuízo de 74,5 milhões de dólares no primeiro trimestre de 2009, valor absurdamente superior ao registrado no mesmo período de 2008, quando o saldo negativo foi de apenas [grifo nosso] 335 mil dólares. O tamanho do rombo em 2009 foi consequência, segundo a direção do Times, da queda na receita publicitária em papel, de 28,4%.

Porto Ferreira deveria ser objeto de estudo dos pesquisadores. Neste pequeno município, que tem cerca de 60 mil habitantes, o JORNAL DO PORTO, tradicional semanário da cidade, chega aos 41 anos, e posa de empresa pujante, próspera, e economicamente viável.

Apesar da crise do jornalismo impresso mundial, a empresa parece blindada contra todos os problemas que afligem o Estadão, a Folha de S. Paulo, a revista VEJA e etc.

Talvez a família Bellini tenha mais competência que os Mesquitas, os Frias e os Civitas como gestores de mídia impressa. Ou, talvez, então, simplesmente, sejam Quixotes Pós-Modernos, não lutando contra moinhos de ventos, mas agindo como verdadeiros zânganos ou parasitas do dinheiro público, mantendo-se vivos com os minguados recursos da Prefeitura Municipal de Porto Ferreira.

Em troca da gorda teta da viúva para sugar recursos públicos, o semanário prestaria rígida e formal vassalagem à corte, oferecendo uma cobertura servil e oficial dos fatos, revelando o que nenhum ferreirense sabia: que a cidade é um paraíso e que o prefeito um salvador ungido por milagre divino...

Neste triste e trágico enredo, os Quixotes deixariam a ingenuidade de lado de olho nos recursos oriundos dos bolsos dos contribuintes ferreirenses para manter sua empresa de pé. Aos 41 anos a águia, de fato, consegue, apenas, e quando consegue, um lépido e trôpego voo de galinha...

Um triste final, sem dúvidas...

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