O fantástico universo das gincanas municipais!!!

Embora muita gente quisesse criar teses dividindo as equipes por classe sociais, preferências sexuais e outras características, a verdade é que cada equipe era uma grande mistura de gente de todo o tipo.

Publicado em 03/02/2019 14:35:56

 O fantástico universo das gincanas municipais!!!

 

Marco Rogério Duarte

Nossa vida é como um livro que começa com todas as páginas em branco. Cabe a cada um de nós preenchê-las ao longo do tempo. Um capítulo desta história eu bem que poderia reservar às gincanas ferreirenses. Este conjunto de disputas que envolvendo esportes, provas culturais, provas de solidariedade e também de busca de objetos incomuns e etc., não só envolviam toda a cidade de Porto Ferreira através dos representantes de todas as equipes, como também abria o espaço para inúmeros talentos. Isso numa época em que internet era coisa reservada às universidades e computadores não passavam de uma novidade inacessível à grande maioria da população.

Os membros destas equipes se envolviam totalmente e ganhar a Gincana era algo fundamental, e nos exageros da adolescência, questão de vida ou morte!  As equipes alugavam uma casa, geralmente no centro da cidade para ser sua sede, e organizavam sua rotina e sua dinâmica. O local, logo na inauguração, também recebia bar e lanchonete, ponto de encontro nos períodos pré e pós-competições. Além de ambiente de confraternização, o chamado QG também se tornava ponto de encontro onde muita gente se conhecia e a paquera rolava solta. Muitos casais que hoje são vovôs se conheceram entre as aguerridas disputas...

Embora muita gente quisesse criar teses dividindo as equipes por classe sociais, preferências sexuais e outras características, a verdade é que cada equipe era uma grande mistura de gente de todo o tipo. De forma muito simplista, preconceituosa e jocosa, diziam que a 69 representava a burguesia, que a WC era a equipe dos gays & lésbicas e a do SindGatos da dos maconheiros e malucos.  Na verdade TODAS as equipes tinham crianças, velhos, heterossexuais, homossexuais, ricos, pobres e etc.

A Praça Cornélio Procópio era o palco das chamadas baterias de provas. Estas disputas eram sensacionais. O organizador ou os organizadores da gincana pediam algum objeto inusitado, assim como um cigarro de cravo, um livro de Umberto Eco ou um LP de Valdik Soriano, por exemplo. O tempo para encontrar o objeto nunca ultrapassava cinco ou dez minutos, de forma que a correria era muito grande. Não eram raros os QGs das equipes também reservarem algum espaço para armazenar bugigangas que poderiam render preciosos pontinhos nas baterias de provas!

O Ginásio de Esportes era o grande palco das provas esportivas e também culturais. Lembro-me que em 1992, pela SindGatos participei das provas culturais e nosso time ganhou a prova disputando com gente extremamente qualificada das outras equipes. A alegria era imensa. A comemoração com a torcida e sua bateria no ginásio era fenomenal!!! Uma felicidade sincera, desligada de qualquer valor material ou de dinheiro, já que o prêmio da Gincana era apenas um troféu...

Lembro-me até hoje que nesta prova uma das perguntas era o nome completo do cantor Cazuza. Eu lembra que era Agenor Miranda. Não sabia que era Agenor Miranda de Araújo Neto, algo que nunca mais vou esquecer!

Os esportes incluíam modalidades novas, pois misturava futebol com vôlei, basquete com futsal e por aí afora. O Umberto Secarini, que organizou inúmeras gincanas com grande competência e êxito, criou em 1992 um jogo de futsal para mulheres onde se jogava nas regras normais, com apenas um detalhe: havia duas bolas em campo. Como naquela época o futebol feminino ainda engatinhavam nenhuma das equipes se atentava ao fato de que era preciso dividir o time dentro de campo para que cada grupo de jogadoras focasse a atenção em apenas uma bola. Bem, o resultado o leitor pode até imaginar: uma confusão total e resultados totalmente absurdos, dignos de uma comédia pastelão. Era risada para todo lado...

Em 1992 se a memória não me trai, tivemos quatro equipes participando da Gincana 29 de Julho:  WC, 69 de todo o Jeito, SindGatos e Ekipiratas. No show final a Ekipiratas abordou a questão da natureza e os riscos causados pelo homem à fauna e à flora. A 69 contou a história da Rádio Primavera que completava 30 anos, se não me engano. A equipe que sabia que ia perder a Gincana, fez desta apresentação a sua despedida do ginásio ao som de “Swingue da Cor” de Daniela Mercury, que era o grande sucesso do momento. Uma apresentação fantástica, diga-se de passagem e o meu show preferido.

Depois acho que veio a SindGatos, mas nossos  diretores artísticos pisaram na bola com um enredo de letra de rock que mais parecia um filme de terror e falava num mundo pós-apocalipse. Confuso e inadequado para falar do Dia da Cidade. Vi a derrota nos olhos!!!

Aí veio o show que deu a vitória à WC. Falaram a história de Porto Ferreira, finalizando com o Hino á Porto Ferreira, com dois atores representando Rubens Parada, autor da música e  o grande José Eugênio Colli, autor da letra, que tem forte viés marxista e valoriza os trabalhadores ferreirenses, ao contrário de outras canções oficiais que somente eternizam os ricos e poderosos. Tema oportuno, momento mágico e vitória assegurada! A turma da WC esperou o resultado e partiu para a comemoração!!!

O pessoal do PT na gestão Maurício Rasi tentou retomar a tradição das gincanas. Em tempos de BBB e outras babaquices, as ideias dos organizadores foi bastante contagiada pela imbecilidade dos realities shows com provas de qualidade para lá de duvidosas. Nem por isso deixaram de ser empolgantes. Mas, verdade seja dita, já não tinha todo o charme dos Anos 80 e 90...

Mas a vida não é só passado. Acredito que é totalmente viável a retomada das gincanas em Porto Ferreira. Em tempos de tecnologia, elas podem até ser repaginadas e reinventadas. Falam de risco de violência e etc. Ora, se não realizar gincana fosse a solução o índice de criminalidade hoje em Porto seria zero. Está aí uma boa ideia do passado que poderia voltar à tona. Sem dúvidas eu estaria em alguma equipe...

 

Marco Rogério Duarte é jornalista

 

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