HERANÇA MALDITA

Só entenderemos esse comportamento de recusa quase suicida às mudanças previdenciárias, se considerarmos a história econômica do Brasil, e as implicações culturais decorrentes.

Publicado em 05/03/2019 13:23:42

HERANÇA MALDITA
Ney Vilela é historiador e doutor em Comunicação Social

NEY VILELA 


Embora todos os brasileiros – com instrução mediana ou superior – saibam que é necessário alterar as normas previdenciárias, a expressiva maioria não quer realiza-las. Por que será?

A resposta mais fácil é dizer que esse pessoal tem privilégios dos quais não quer prescindir, mesmo que às custas de deterioração das condições de vida dos mais humildes e da destruição de todo o sistema previdenciário no horizonte de uma quinzena de anos.

Esse raciocínio leva a conclusões equivocadas, pois nos obriga a supor que pais de família, que se sacrificaram pela educação dos filhos e que trabalharam arduamente por décadas, sejam figuras grosseiramente individualistas. E que estejam totalmente despreocupados com o fato de seus descendentes não terão amparo financeiro, quando chegarem à velhice.

Só entenderemos esse comportamento de recusa quase suicida às mudanças previdenciárias, se considerarmos a história econômica do Brasil, e as implicações culturais decorrentes.

Desde a longínqua década de 1940, o brasileiro que poupa – pensando nos seus tempos de velhice – é lesado pela ação dos governantes. Isso começou com a substituição dos mil-réis, pelo cruzeiro, numa época em que o sistema bancário era pouco mais do que inexistente, prejudicando, na conversão de moedas, quem entesourava recursos em sua residência. Na mesma época, a emissão de moeda para incentivar atividades industriais, ampliou a desvalorização do dinheiro.

Na década de 1950, a política demagógica de aumentos salariais acima dos índices de produtividade, apenas criou papel colorido ao invés de riquezas: não adiantou nada para a nova classe operária e dilapidou a poupança da classe média e dos funcionários públicos.

Na primeira metade dos anos 1960, a ciranda inflacionária ampliou-se, por conta da incompetência e irresponsabilidade do governo João Goulart; na segunda metade, o regime militar decidiu-se por ordem nas contas estatais às custas dos cidadãos, desvalorizando a poupança.

Nos anos 1970, a fúria estatizante da ditadura se alimentou de nova espiral inflacionária. A década de 1980 e o começo da década de 1990 foram tempos devastadores, com a indexação insuficiente por ocasião dos Planos Econômicos Heterodoxos, e com a inflação chegando perto dos 3.000% ao ano!

O que essa sucessão de dramas econômicos significa do ponto de vista previdenciário? Significa que o brasileiro médio, impedido de fazer o seu próprio pecúlio, acabou obrigado a depender da aposentadoria. O desrespeito ao valor do dinheiro, por parte dos governantes, induziu a uma cultura da imprevidência, por parte dos cidadãos.
Fernando Henrique produziu um breve interregno de responsabilidade fiscal e de respeito ao valor do dinheiro. Mas isso durou meros oito anos. Logo a seguir, a incompetência e a irresponsabilidade do velho Jango foram elevadas à máxima potência por Dilma Rousseff.

Enfim, para o cidadão de classe média e para o funcionário público, o único porto seguro parece ser a aposentadoria. Como convencer o cidadão a poupar por conta própria, se pode aparecer um Collor qualquer e lhe sequestrar a poupança?

Nosso povo tem medo de poupar. Essa é a herança maldita, produzida por governos populistas e por uma ditadura incompetente, que explica a aversão às mudanças previdenciárias.

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