DEVERES ADQUIRIDOS

É evidente, para mim, que a sociedade brasileira deve exigir, em contrapartida às evidentes melhorias das condições de vida, que seus partícipes trabalhem em torno de 40 anos ininterruptos e que se aposentem depois dos 60 anos de idade.

Publicado em 10/02/2019 15:40:59

DEVERES ADQUIRIDOS

NEY VILELA

Há uma vasta literatura sobre direitos humanos, a começar pela nobre Declaração Universal dos Direitos Humanos, produzida no alvorecer da ONU e assinada em 10 de dezembro de 1948. De resto, é meritório e saudável que intelectuais, artistas, políticos e líderes das classes produtivas estejam sempre atentos ao tema dos direitos humanos, defendendo-os e até os ampliando.

Viver em sociedade é uma necessidade e um direito de todos. Ao nos associarmos, numa grande coletividade, assumimos – também – o dever de reconhecer que todos os integrantes devem partilhar das responsabilidades que garantam a estabilidade institucional e o progresso econômico do organismo social.

Nos últimos cinquenta anos, a sociedade planetária – no geral – e a sociedade brasileira – em particular – brindaram, seus membros, com significativos avanços nas condições econômicas e de expectativa de vida.

Enquanto a população planetária (e brasileira) quase triplicou nesse período, a quantidade de miseráveis reduziu-se, inclusive em valores numéricos absolutos!

No caso brasileiro, a expectativa de vida aumentou em aproximadamente 30 anos, no último meio século. Lembro que, em minha infância, convivi com avós sexagenários de saúde frágil, problemas sérios na visão e audição, dificuldades de locomoção.

Uma de minhas avós faleceu muitos anos antes de eu nascer. Hoje, aos 62 anos, pratico 20 minutos diários de corrida em esteira ergométrica. Pessoas com minha idade têm expectativa de vida de mais 23 anos, provavelmente em boas condições físicas na quase totalidade desse tempo restante. Como é bom usufruir desse direito à vida!

Certamente esse direito, que usufruo, deve implicar em dever simétrico. No caso, o dever de trabalhar mais tempo para retribuir as benesses, que a sociedade em que vivo, concedeu. Com orgulho, ostento os 42 anos de trabalho ininterrupto como professor; os 30 anos em que escrevo artigos, apostilas e livros; meu tempo (décadas!) nos palcos amadores e profissionais.

É evidente, para mim, que a sociedade brasileira deve exigir, em contrapartida às evidentes melhorias das condições de vida, que seus partícipes trabalhem em torno de 40 anos ininterruptos e que se aposentem depois dos 60 anos de idade.

Em especial, isso deve ser exigido de quem sempre trabalhou em condições relativamente salubres e com salários mais elevados. É também evidente que pessoas que sempre ganharam mais do que, digamos, dez salários mínimos, tenham acumulado recursos para viver dignamente, após os 60 anos, com aproximadamente R$6.000,00 de aposentadoria mensal.

Fico surpreso quando magistrados, funcionários públicos de elite, e militares de alta patente falam de “direitos adquiridos”, para defender aposentadorias precoces e nababescas.

O direito a uma longevidade saudável já lhes foi dado. O que lhes resta é não se furtarem ao dever de retribuir, com trabalho, às benesses de uma sociedade que sempre lhes favoreceu. Enfim, também existem “deveres adquiridos”.

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