Bolsonaro, carnaval e o senso comum

O problema foi que o presidente Bolsonaro, incomodado com as críticas das ruas, acabou por compartilhar vídeo incompatível com a visibilidade e liturgia que o cargo que ocupa reclama.

Publicado em 11/03/2019 20:08:50

Bolsonaro, carnaval e o senso comum
*Rodrigo Augusto Prando, professor e pesquisador do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas, da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Graduado em Ciências Sociais, Mestre e Doutor em Sociologia, pela Unesp - FOTO: DIVULGAÇÃO

 

Rodrigo Augusto Prando*

Como já asseverei, aqui neste espaço, no Blog do Fausto Macedo, as crises, problemas e ruídos na comunicação do governo são, todas, oriundas do próprio governo. Bolsonaro, filhos, ministros e aliados são a gênese e difusores de declarações desconexas, inverdades e, muitas vezes, aquém da dignidade do cargo que ocupam, quebrando o decoro.

Nestes dias de carnaval, o presidente Bolsonaro divulgou vídeo, já famigerado, de condutas impróprias, libidinosas, criminosas mesmo no espaço público, de indivíduos num bloquinho na cidade de São Paulo. O episódio, a lógica presidencial e a repercussão reclamam, essencialmente, reflexões sociológicas.

 

Vejamos.

Políticos, sempre, foram objeto de riso, escárnio e crítica nas ruas, no carnaval, tomado por foliões. Isso data de tempos idos.

Com o atual presidente não foi diferente. Contudo, ao compartilhar o vídeo o mandatário da nação quis, evidentemente, condenar uma festa nacional, bem como parte de seus participantes, generalizando a atitude de alguns poucos. Quis, no limite, dar um recado: “esses são os que me criticam nas ruas, tirem suas conclusões!”.

Depois da enorme repercussão negativa, no Brasil e no exterior, veio uma nota oficial afirmando que não havia essa intenção por parte de Bolsonaro. No caso em tela, Bolsonaro fez algo muito presente no universo do senso comum: o recurso do uso de generalizações que, quase sempre, são pobres e vazias para explicar uma dada realidade.

O conhecimento do senso comum, conhecimento superficial, irrefletido, vulgar, ordinário, faz parte de nossa vida cotidiana. Não viveríamos sem esse tipo de conhecimento e, também, sem recorrer às generalizações.

Ao, por exemplo, atravessarmos uma rua não calculamos nossa velocidade média e nem a velocidade média dos carros que vem em nossa direção. Simplesmente, atravessamos e se um carro acelera, nós apertamos o passo ou mesmo corremos para chegar do outro lado.

Ninguém, pela manhã, antes de acender a luz do quarto, pondera acerca da geração e da distribuição de energia até nossa residência. Acendemos a luz, levantamos e tocamos a vida. Ou seja: usamos, quase sempre, esse tipo de conhecimento acumulado pela experiência, no cotidiano, e operamos por constantes generalizações.

Não haveria dinâmica social se, todos a todo o tempo, ficassem conceituando cientificamente os afazeres do dia a dia. Contudo, no que tange às relações sociais, o senso comum e as generalizações podem perpetuar preconceitos arraigados em práticas historicamente compartilhadas e, por isso, gerarem violências simbólicas e físicas.

Não só o presidente, mas alguns de seus ministros abusaram de visões simplistas e de conteúdo alicerçado sobre generalizações.

A ministra Damares Alves – da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos – há tempos, afirmou que meninos vestem azul e meninas vestem rosa. Muitos – e com razão – por suas experiências concordaram com Damares pois se lembram da formação dos enxovais infantis.

Aí, no caso, reside o busílis da questão: a ministra fez afirmação assentada no senso comum, na experiência compartilhada, como se verdade fosse, sem nenhuma reflexão crítica, sem nenhum questionamento do porquê, histórica e socialmente, vestimos meninas e meninos com estas cores.

A fala da ministra tem elementos de “pré-conceitos”, visto que buscou definir os indivíduos pelas cores que usam. E, sabemos, no campo dos direitos humanos, o Brasil é, triste e violentamente, machista e homofóbico, quando não se respeita a individualidade dos seres humanos classificando-os em categorias pré-concebidas e disseminadas acriticamente.

O ministro Ricardo Vélez Rodriguez, da Educação, por sua vez, em entrevista para a revista de maior circulação no país, afirmou que: “O brasileiro viajando é um canibal. Rouba coisas dos hotéis, rouba o assento salva-vidas do avião; ele acha que sai de casa e pode carregar tudo”.

A tolice proferida pelo ministro teve uma tosca generalização e, ainda, uma ofensa “aos” brasileiros. Afirmou, depois, que suas palavras foram retiradas do contexto pela publicação. Ato contínuo, a revista publicou os áudios da entrevista e o noticiado era, realmente, a fala do ministro.

Então, nisso tudo, claro está que Bolsonaro ao publicar o vídeo em rede social tinha, sim, a intenção de julgar, com ideias do senso comum, com tosca generalização, o comportamento dos brasileiros foliões em bloquinhos de carnaval.

Muitos – eu mesmo presenciei em grupos bastante cultos e esclarecidos – passaram a tomar afirmações do senso comum e generalizações proferidas sejam por Bolsonaro ou seus ministros como verdade.

Vale, aqui, enfatizar um elemento de suma importância: o senso comum comunicado pelos políticos ora no poder continua sendo senso comum. O poder político não tem condições de dar legitimidade ao senso comum, aos preconceitos e às rasas generalizações. São, quer queiramos ou não, os especialistas, os cientistas, os que dedicam sua vida ao conhecimento filosófico ou científico, aqueles capazes de fazer afirmações assentadas em dados, em pesquisas, em investigações.

É bem provável que Bolsonaro, pessoa física, tenha gosto pelo carnaval. O problema foi que o presidente Bolsonaro, incomodado com as críticas das ruas, acabou por compartilhar vídeo incompatível com a visibilidade e liturgia que o cargo que ocupa reclama.

Para todos, leitores, deixo, por fim, citação do invulgar Roberto DaMatta, em seu livro O que faz o brasil, Brasil, sobre o carnaval:

“Carnaval, pois, é inversão porque é competição numa sociedade marcada pela hierarquia. É movimento numa sociedade que tem horror à mobilidade, sobretudo à mobilidade que permite trocar efetivamente de posição social. É exibição numa ordem social marcada pelo falso recato de “quem conhece o seu lugar” – algo sempre usado para o mais forte controlar o mais fraco em todas as situações. É feminino num universo social e cosmológico marcado pelos homens, que controlam tudo o que é externo e jurídico, como os negócios, a religião oficial e a política. Por tudo isso, o carnaval é a possibilidade utópica de mudar de lugar, de trocar de posição na estrutura social. De realmente inverter o mundo em direção à alegria, à abundância, à liberdade e, sobretudo, à igualdade de todos perante a sociedade. Pena que tudo isso só sirva para revelar o seu justo e exato oposto.”

 

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