Aos amigos petistas e bolsonaristas e seus simpatizantes

Prezados amigos petistas e bolsonaristas,

Publicado em 29/10/2018 15:29:26

Aos amigos petistas e bolsonaristas e seus simpatizantes
Rodrigo Prando é cientista político

RODRIGO PRANDO 

Em primeiro lugar, sim, eu tenho amigos nestas duas dimensões políticas. Não vou, aqui, como não fiz antes, rotular ninguém por qualificativos pouco condizente com a realidade dos fatos. Ou seja: o PT no poder não foi comunista e nem socialista como Bolsonaro no poder não será nem facista e nem nazista. Há, nos dois, PT e Bolsonaro, elementos autocráticos, de desprezo à democracia, às instituições e aos adversários. A eleição acabou. Um presidente foi eleito. Devemos saber perder e ganhar. Conhecemos, em grande parte, o íntimo das pessoas nestas suas situações: a tristeza da derrota e a arrogância da vitória.

Vocês, petistas e simpatizantes, perderam para Collor e para o FHC por duas vezes. Depois, ganharam quatro vezes seguidas: duas com Lula e duas com Dilma. O que vocês sentiram ontem e sentem hoje, os eleitores do PSDB sentiram nos últimos 16 anos. Dói, mas passa.

O PT quis, sempre, a hegemonia e cultuou Lula. O PT recebeu um país não perfeito, mas uma economia estabilizada e inflação controlada de FHC. Inclusive FHC fez, para Lula, a transição mais civilizada de poder que se conhece em nossa história republicana. E o que fez o PT? Criaram a primeira narrativa que FHC deixou uma "herança maldita".

Depois, em 2014, a propaganda de Dilma destruiu Marina Silva a ponto de afirmar que, se eleita, Marina tiraria comida da mesa do brasileiro pobre. Neste ano, 2018, Lula, preso, conseguiu, politicamente, passar uma rasteira em Ciro Gomes e isolar o PDT e Ciro. Mas, agora, no segundo turno, os petistas tinham a crença que todos - FHC, Marina e Ciro - tinham a obrigação moral de se colocarem ao lado de Haddad.

O PT só quer pontes quando o ponto de saída e de chegada lhe são favoráveis. O PT insistiu na narrativa do golpe em relação ao impeachmente, de Lula perseguido e preso injustamente, de que eleição sem Lula seria uma fraude. O PT, em síntese, criou, com eficiência, a narrativa do "nós contra eles". E, neste pleito, achou alguém que sabia jogar numa política de divisões desta ordem, considerando o oponente não um adversário, mas, sim, um inimigo. Foi, aqui, que Bolsonaro começou a nadar de braçada. O PT e Lula jogaram muita, muita água no moinho bolsonarista.

Agora, por outro lado, vocês, bolsonaristas e simpatizantes, calma, muita calma. Especialmente, os bolsonaristas quase "teens". Bolsonaro foi eleito. Tem força política extraordinária. Mas, o poder, aqui, no Brasil, numa democracia representativa, é do povo, que é soberano.

O Presidente eleito representa o povo: os seus eleitores e, também, os que não o escolheram. E, ,mais ainda, o poder não é pleno, há outros poderes: o Legislativo e o Judiciário. Vocês, amigos bolsonaristas por ocasião, que votaram no ex-capitão não pelas suas qualidades, mas que votaram com objetivo antipetista, estejam atentos!

Bolsonaro se apresentou como antissistema, antipolítico, antipetista e antilula. Pode ser que seja os dois últimos, pois ele é político e sempre esteve dentro do sistema que criticou. Vocês, amigos, que votaram, segundo me relataram, de "nariz tapado" no Bolsonaro, agora, destapem o nariz e estejam atentos aos odores, especialmente aos de autoritarismo que, insisto, não tem, aqui, necessariamente, relação com fascismo e com o nazismo. 

Nosso tecido social foi esgarçado em suas relações - familiares, afetivas, de amizade, profissionais e ideológicas - e, incrivelmente, não se rompeu. Cabe, doravante, aguardar que Bolsonaro tire a roupa do candidato e passe a usar a roupa presidencial, com a liturgia que o cargo reclama. Cabe, essencialmente, que ele passe a governar e liderar, pois a campanha findou-se. 

Foi, em tudo, uma eleição paradigmática. Uma eleição com ódio, medo e rejeição. Espero que tenhamos, paulatinamente, uma sociedade mais generosa e menos violenta. E isso não depende, apenas, de políticos. O exemplo dos líderes podem ser imitados e, por isso, a responsabilidade é sempre maior. Contudo, todos, todos nós, somos responsáveis pelo nosso entorno, pela civilidade, pela boa educação. 

Termino essa eleição assaz cansado. Trabalhei muito. Errei e acertei, mas não ofendi ninguém, não exclui ninguém. Por certo, fui excluído por amigos ou colegas. Paciência. 

É a vida que segue. A política não acabou. Acabou a eleição. Sejamos fortes e generosos, na vitória e na derrota. 
A todos, todos, indistintamente, meu forte abraço!

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