A cultura da morte e a morte da cultura

Perdemos aquele mínimo de coesão social que nos permitiria respeitar o próximo, como um irmão. Certamente existem muitos fatores que nos levaram a essa situação trágica.

Publicado em 06/02/2019 18:12:20

A cultura da morte e a morte da cultura

NEY VILELA

Mais de 60 mil pessoas morreram assassinadas, em um ano, no Brasil. Esse número, solitariamente, já é mais do que a soma dos estadunidenses que morreram no Vietnã, em todo o decorrer dessa guerra. E nosso índice de mortes violentas, por grupo de dez mil habitantes, é muito maior do que o de países como o Iraque.

No trânsito morreram perto de 30 mil pessoas, em 2017. Mais 500 mil ficaram com pelo menos uma sequela permanente. As mortes por acidentes de trabalho, no mesmo ano de 2017, foram perto de 2.400; os acidentes laborais, registrados, foram mais de 650.000.

Nossa sociedade, nossos cidadãos, nós regredimos a uma insensibilidade selvagem em relação à vida. Não damos valor à vida alheia e, em verdade, nem sequer damos valor à nossa própria vida. Isso se percebe quando constatamos a existência de casas noturnas como a Boate Kiss e gente que se disponha a se divertir em lugares assim. Ou quando engenheiros constroem um Centro Administrativo à jusante de uma barragem de rejeitos, como se viu em Brumadinho; e que morrem almoçando dentro da ratoeira que eles próprios construíram.

Não se diga que existe uma elite sanguinária, culpada de tudo porque só pensa em explorar os outros. É só observar os operários e camponeses que se recusam a usar equipamentos de segurança, no local de trabalho. Ou motoristas que andam com pneus carecas, amortecedores estourados, e os que destroem a suspensão de seus veículos, por “motivos estéticos”, multiplicando acidentes que simplesmente não deveriam ocorrer. São partidários da morte, os que lançam dejetos sobre as águas de rios, lagos e mar; os que depredam instalações elétricas públicas; os que lançam detritos nos leitos carroçáveis ou bitucas de cigarro nas matas; os que jogam lixo em terrenos baldios. Temos que reconhecer que o general fascista Millán (aquele que gritou “Viva la muerte!” diante de Miguel de Unamuno) sentir-se-ia em casa, no Brasil.

Perdemos aquele mínimo de coesão social que nos permitiria respeitar o próximo, como um irmão. Certamente existem muitos fatores que nos levaram a essa situação trágica.

Eu me permito apresentar um deles: o criminoso abandono das atividades de cultura; abandono que vai das festas tradicionais às orquestras sinfônicas; das brincadeiras de infância ao teatro amador; do circo aos festivais de música.

O pessoal dos Titãs disse, uma vez: “A gente não quer só comida; a gente quer diversão e arte”. Não se vive sem cultura, da mesma forma que não se vive sem comida ou sem saúde. Mas não há mais Ministério da Cultura. Hoje, no Brasil, em 99% das cidades, o que o município gasta com cultura é muito menos do que gasta com a Câmara de Vereadores, quando, na maior parte dos países, ser vereador é atividade não remunerada...

Literalmente, jogamos a cultura no fogo dos infernos: incendiamos o Museu de Arte Moderna, do Rio, em 1978; o Teatro Cultura Artística, em 2008; o Instituto Butantã, em 2010; o Auditório Simón Bolívar, em 2013; o Museu da PUC-Minas, em 2013; o Liceu de Artes e Ofícios, em 2014; o Museu da Língua Portuguesa, em 2015; a Cinemateca Brasileira, em 2016; o Museu Nacional, em 2018.

Ao matar nossa cultura, suicidamo-nos.

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