O EU CATATÔNICO

As grandes entidades manipuladoras da internet nos bombardeiam com notícias que escondem os fatos em nuvens de insultos e ilações falsas. Descontextualizam as informações, jogando as pessoas ávidas por novidades em bolhas que as isolam do mundo real.

Publicado em 17/02/2019 11:14:54

O EU CATATÔNICO

NEY VILELA

A internet publica 50 trilhões de páginas por ano. Como somos 7 bilhões de seres, temos a média de 07 mil páginas/habitante, produzidas a cada 365 dias. Esses números indicam que existe uma assimetria de poder ainda maior do que a construída pelo sistema capitalista, na esfera econômica. Afinal, é improvável que os seres humanos que acessam a internet (ou seja, algo em torno de quatro bilhões de pessoas) produzam, cada um, mais do que – digamos – 500 páginas por ano. Por consequência, alguns poucos milhares de instituições nos impõem as 48 trilhões de páginas restantes...


As grandes entidades manipuladoras da internet nos bombardeiam com notícias que escondem os fatos em nuvens de insultos e ilações falsas. Descontextualizam as informações, jogando as pessoas ávidas por novidades em bolhas que as isolam do mundo real.

Muitas pessoas (talvez a maioria de nós) buscam autoafirmação jactando-se de saber mais do que os interlocutores. Como sabedoria é uma construção árdua e perene, busca-se um caminho mais fácil: basta ir em busca das “novidades” que estão ao alcance de um clique. Esse tipo de gente, que só presta atenção no que lhe chama a atenção, acaba capturada por produtores midiáticos que usam a isca da torpeza e dos baixos instintos para impor os seus produtos (sejam eles físicos ou imateriais). Por conclusão, os que pensam estar arrebanhando seguidores estão, em verdade, a serviço de algum “grande irmão” que customiza comportamentos e consumidores.

A internet, ao invés de libertar, produz idiotia, isolamento, depressão. Nos Estados Unidos, por exemplo, a internet produziu uma onda anticientífica tão gigantesca que levou metade da população a rejeitar as teorias da evolução, em favor do criacionismo...

Aqui, no Brasil, o entulho midiático produziu “hippies chiques” que deixaram de vacinar os filhos, permitindo a volta de doenças que já estavam erradicadas. Deu força a uma certa esquerda que quer banir as pesquisas genéticas; e a uma certa direita que acha que o aquecimento global é uma trama marxista. Percebe-se, inclusive, que há adeptos da teoria da Terra Plana pululando nas redes sociais...

A barafunda digital produziu gente que acha que (com apoio da tecnologia, ou sem apoio algum) pode educar melhor os seus filhos em casa, do que enviá-los para uma escola. Pessoas, que não conseguem compreender o que está escrito nos manuais de instruções de eletrodomésticos, sob doutrinamento midiático, exigem que as leis sejam elaboradas de acordo com o que elas acham que está escrito nos Evangelhos.

A passividade e negativismo, de tempos em tempos, transformam-se em excitação destrutiva: uma greve de caminhoneiros – que produziu desabastecimento, carestia, desemprego e violência – foi apoiada pelos que mais foram prejudicados pela paralisação; o debate político, que deve procurar a conjunção de interesses, transformou-se em arena em que se deve destruir o oponente.

Por mais que a realidade mostre o contrário, o “eu” catatônico que se criou no mundo digital, prefere seguir sua convicção. O argumento é substituído pela opinião. Esse triunfo da vontade sobre o conhecimento pode levar nossa sociedade à tragédia.

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