PRIMEIRA PÁGINA registra “novela das enchentes” há 32 anos

Durante este período, lojistas amargaram prejuízos gigantescos e duas pessoas morreram levadas pelas águas das tempestade

Publicado em 08/12/2020 06:21:04 | Por: JORNAL PRIMEIRA PÁGINA

PRIMEIRA PÁGINA registra “novela das enchentes” há 32 anos

 

Marco Rogério

Quem deseja conhecer a história de um município deve ter como fonte os seus jornais impressos. O PRIMEIRA PÁGINA, nos últimos 32 anos, registrou a saga de São Carlos, suas conquistas, seus problemas, seus dramas. As enchentes e suas consequências também estão impressas em várias matérias  publicadas ao longos destes vários anos.

Vale lembrar que município de São Carlos cresceu 75 mil habitantes em apenas 25 anos. Entre 1995 e 2020, o município ganhou uma população que dá o total atual de habitantes de Pirassununga, cidade da região que abriga duas bases das forças armadas brasileiras: uma da Aeronáutica e outra do Exército. A cidade saiu do Século XX e entrou no Século XXI em pleno avanço demográfico.

O município ganhou vários novos bairros, como o São Carlos 8, na Zona Leste, o Moradas I e Moradas II e Araucária na Zona Noroeste, além dos complexos de condomínios fechados Dahma e Faber. Na Zona Sul, talvez a que mais tenha crescido, bairros populares como Jardim Zavaglia, Planalto Verde e Eduardo Abdelnur abrigaram milhares de são-carlenses.

Vários fatores colaboraram para este crescimento. Neste período, por exemplo, a UFSCar praticamente dobrou o número de cursos e de alunos, a USP também cresceu, ganhando um campi II e a Unicep tornou-se centro universitário. A cidade recebeu novos e importantes investimentos. A cidade que tinha um pesquisador para cada 200 habitantes, agora tem um para cada 100 são-carlenses.

Outra empresa importante, a Latam, antiga TAM, montou, em 2001, na antiga montadora da CBT, um centro de reparos de aviões. De lá para cá, o Aeroporto Mário Pereira Lopes tornou-se internacional e, assim, São Carlos vive a expectativa de se tornar um grande centro de importação e exportação através do transporte aéreo.

São Carlos deixou de ser uma cidade agrícola ainda na década de 1930. Nos anos 1940 já vivia um forte processo de industrialização de urbanização. A chamada Baixada do Mercado Municipal, onde a cidade nasceu, foi cada vez mais ocupada pelos comerciantes e pelas empresas prestadoras de serviços. O êxodo rural causou forte avanço demográfico.

Vários córregos passaram a ser canalizados, o solo foi impermeabilizado, as construções se tornaram verticais com prédios enormes e as obras necessárias para escoar as águas pluviais no caso de uma chuva com volume anormal, nunca foram feitas. A cidade cresceu sem planejamento.

O fato é que as enchentes se tornaram mais frequentes justamente a partir de 1995, quando o município tinha 175 mil habitantes. Os prejuízos materiais foram enormes.  Mas a tragédia também, literalmente, “levou” vidas humanas.,

PROFESSORA- No dia 13 de dezembro de 1999, por volta de 18h40, a professora de música Maria Bernadete Rossi Ferrari perdeu o controle de seu veículo, caiu dentro do córrego do Monjolinho e desapareceu nas águas durante uma das tempestades  de verão de São Carlos. Seu corpo foi enconardo depois de mais de 30 horas a 25 km de onde o carro caiu.

MOTORISTA - No dia 27 de fevereiro de 2011 as chuvas fizeram outra vítima. O temporal causou, na madrugada daquele dia, a destruição de uma ponte na Estrada Vicinal Cônego Washington Pêra. Benedito Medeiros Silveira foi levado pelas águas em seu automóvel Chevrolet Monza, de cor preta. Seu corpo foi encontrado no dia seguindo cerca de 3,5 km do local do acidente, no Córrego Água quente. Anos depois, em 2014, a Prefeitura de São Carlos foi condenada pelo Tribunal de Justiça, a pagar R$ 124 mil de indenização á família de Benedito.

ANÁLISE ´- Se São Carlos teve problemas agravados com seu crescimento populacional, a cidade também avança na possibilidade de soluções para seus problemas.  A análise é da arquiteta e urbanista Sandra Regina Mota Silva, professora do Curso de Engenharia Civil da UFSCar.

A urbanista ressalta que  essa dinâmica de crescimento demográfico de São Carlos foi decorrente de um processo de reestruturação produtiva que desencadeou a interiorização de um conjunto de atividades econômicas. Nesse contexto, São Carlos se revelou um importante centro de prestação de serviços educacionais de qualidade, com campi universitários e centros de pesquisa reconhecidos, impulsionando a constituição de empresas de base tecnológica. “Essa configuração foi viabilizada por redes de transportes e comunicações que têm favorecido o crescimento de cidades, especialmente  daquelas dispostas ao longo das melhores rodovias estaduais”, afirma Sandra.

Os estudos da especialista revelam que a população crescia em velocidade maior que a ataul há algumas décadas. “Observa-se também que, no caso de São Carlos, a partir da década de 1940, a cada 30 anos, houve uma duplicação da população. Esse fenômeno ocorreu até o ano 2000, tendo uma refreada na última década. Tal condição, além de boas oportunidades para a melhoria das condições de vida da população como um todo, traz, também, um conjunto de desafios para a gestão da cidade”, destaca Sandra.

Segundo ela, nem São Carlos, duas das políticas urbanas mais difíceis de equacionar a contento, tem sido a da mobilidade urbana e a de drenagem das águas pluviais. Não que outras esferas não tenham problemas, mas essas duas implicam em transformações mais estruturais.

 

 

 

LINHA DO TEMPO

 

  • 1857 – Fundação de São Carlos.
  • 1899 – São Carlos avança com a riqueza do café  e com a chegada dos imigrantes italianos e de outras regiões da Europa.
  • Início do Século XX – maioria da população de São Carlos vive na zona rural.
  • 1905 – Segundo Fundação Pró-Memória ocorre a primeira enchente de São Carlos
  • 1929 – Crash da Bolsa de Valores de Nova York e crise mundial.
  • 1930 – Crise mundial atinge Brasil e a produção de café. Muitos cafeicultores vão à falência.
  • Anos 1930 – São Carlos ganha grande impulso industrial, sua nova atividade econômica.
  • Anos 1940 – A urbanização é acelerada e a impermeabilização do solo é ampliada.
  • 1945 – Implantação das Indústrias Pereira Lopes, que vão revolucionar a produção industrial na cidade.
  • Anos 1950 – Nasce a CBT, a primeira indústria de tratores 100% brasileira.
  • Anos 1950 – Canalização do Córrego do Gregório.
  • 1970 – É criada a Universidade Federal de São Carlos.
  • 1988 – Nasce o Jornal Primeira Página.
  • 16 de maio de 1995 – uma grande enchente causa inundações no centro de São Carlos. Mercadão é alagado.
  • 09 de dezembro de 1998 – Após um período de trégua, enchentes voltam a causa estragos na região central de São Carlos, causando prejuízo aos lojistas.
  • 13 de dezembro de 1999 –Temporal causa morte de professora que cai com automóvel Tempra no Córrego do Monjolinho, na altura do Restaurante Casa Branca.
  • 26 de março de 2001 – As chuvas voltam e as inundações também. A cidade começa a ser governada pelo PT, de Newton Lima.
  • 23 de maio de 2004 – As chuvas voltam a fazer estrago em pleno domingo, deixando mais uma vez a cidade apavorada.
  • 17 de dezembro de 2005 –
  • 27 de fevereiro de 2011 -  As chuvas fazem a sua segunda  vítima. A destruição de uma ponte na Estrada Vicinal Cônego Washington Pêra causou a morte de Benedito Medeiros Silveira, que  foi levado pelas águas em seu automóvel Chevrolet Monza, no Córrego Água quente.
  • 23 de novembro de 2015 - Chuva deixou o Centro embaixo d'água e causa prejuízo de R$ 6,3 milhões.A água levou 400 kg de peixe e até um freezer de uma empresa, causando perdas de R$ 60 mil.
  • 2020­ – São Carlos chega a 250 mil habitantes, 75 mil a mais do que em 1995, vinte e cinco anos antes.
  • 02 de janeiro – 2020 começa com muita chuvas e novas inundações ocorrem no cenor da cidade
  • 04 de janeiro, sábado – A tempestade volta e causa novos alagamentos
  • 12 de janeiro domingo - Até hoje o maior volume de chuva e a maior inundação da história. Em 20 minutos choveu 167,8 mm no último.
  • 26 de novembro – As chuvas voltam a arrasar o centro de São Carlos, atingindo cerca de 30 veículos e 120 lojas.

 

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