13 DE MAIO | UMA DATA PARA COMEMORAR E DENUNCIAR

Drª Joana D’Arc de Oliveira

Publicado em 13/05/2020 21:00:37

13 DE MAIO | UMA DATA PARA COMEMORAR E DENUNCIAR

O 13 de maio precisa ser analisado a partir da perspectiva negra, ou seja, por meio de uma leitura decolonial. Nessa perspectiva, a data apresenta duas facetas, as quais se entremeiam, se entrelaçam, mas não se completam.

Já passou da hora de o Brasil reconhecer que a conquista da liberdade foi protagonizada pelos próprios negros e negras, escravizados ou livres, que atuaram na linha de frente em prol do fim do sistema escravista.

Suas ações de revoltas amedrontaram as elites e os governantes, que optaram pela instituição da liberdade de forma lenta e gradual, o que porém, não contentou os ânimos dos revoltosos.

Maria Helena Machado aponta que, em meio a tantas ações de negros e negras em prol da liberdade, o Império Brasileiro não teve outra escolha que não fosse decretar extinta a escravidão no Brasil, o que demonstra o protagonismo da população negra nessa conquista.

A outra faceta do 13 de maio se refere a cartada de mestre das elites e da nascente República, que. amparados no racismo científico, desenvolveram um aparato para marginalizar, caricaturar, perseguir, criminalizar e estereotipar homens e mulheres negros.

Nenhuma política foi estabelecida para inserir na sociedade aqueles e aquelas que por mais de trezentos anos construíram e contribuíram para o desenvolvimento do país. As consequências desse aparato, apesar de toda luta e resistência dos movimentos negros, ainda são sentidas e vivenciadas principalmente nos bairros negros, que segundo Henrique Cunha, abrigam uma população majoritariamente afrodescendente, excluída da cidade legal.

Os dados de pobreza, acesso à moradia, educação, saúde, cultura e lazer indicam que ainda são os negros e negras que sofrem com o descaso do Estado. Sendo assim, julgamos que, se por um lado, o 13 de maio é a data em que se comemora as lutas dos povos negros em prol do fim do sistema escravista, por outro, é a data de reafirmação da denúncia de uma liberdade que nunca veio. Se os nossos ancestrais acreditaram tê-la conquistado com o próprio sangue, cabe a nós, honrá-los e continuarmos a luta.

* Professora Colaboradora no Instituto de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (IAU-USP). Doutora em Arquitetura e Urbanismo e pesquisadora em Arquiteturas, Territórios e Culturas Africanas e Afro-brasileiras. Oliveira é autora do livro “Da senzala para onde? Negros e negras no pós-abolição em São Carlos - SP (1880-1910) “, publicado pela Fundação Pró-Memória.

Imagem: Grafite e aquarela sobre papel de Wilson Tibério (1923-2005)

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