“PCC é maçonaria do crime”, afirma especialista

Autor de livro sobre a facção criminosa, pesquisador da UFSCar aponta as contradições e os equívocos das forças de segurança no combate à criminalidade

Publicado em 05/07/2020 17:03:42

“PCC é maçonaria do crime”, afirma especialista
O escritor e professor da UFSCar, Gabriel Feltran: “o crime no Brasil é pensado a partir da existência de um inimigo, o que é um equívoco que gera a guerra” Foto: João Moura

Marco Rogério

Enquanto os líderes de outras facções criminosas, presas ou em liberdade, adorem aparecer para a mídia, Marco Camacho, o “Marcola”, continua negando ser líder do Primeiro Comando da Capital (PCC). Esta postura, porém, não é “gratuita”. Ela faz parte de uma estratégia de não personalizar esta estrutura do crime, para que a organização haja como “maçonaria”, com discrição.

A explicação é de Gabriel Feltran, professor do Departamento de Sociologia da UFSCar e diretor cientifico do Centro de Estudos da Metrópole (CEM)  e autor do livro “Irmãos, uma História do PCC”, publicado em 2018 pela Companhia das Letras.  Em entrevista exclusiva ao Primeira Página, ele afirma  que dentro da facção criminosa paulista não existe o “endeusamento” dos líderes.

“Esse ‘endeusamento’ dos líderes do crime vem mais da imprensa do que do mundo do crime,  internamente. Ao contrário do que acontece no Rio de Janeiro, em que as facções se assemelham a empresas piramidais e comandos militares, com lideranças personalizadas - Beira-mar, Rogério 157, Nem da Rocinha, Marcinho VP etc. - em São Paulo o PCC atua em outro formato. O PCC é uma espécie de ‘maçonaria do crime’. Cada irmão tem o seu negócio, e contribui mensalmente para a irmandade, para a fraternidade, sem dividir com ela seus lucros. Cada irmão do PCC executa funções de responsabilidade na organização, sem ocupar posições de mando. São as posições que detém o poder, não as pessoas. A liderança não é personalizada no PCC, ao contrário do que pensa a mídia e os órgãos oficiais”, comenta.

Feltran afirma que a criminalidade em São Carlos tem hegemonia do PCC, o que dificultaria, por exemplo ‘acordos’ ou negociações com as instituições governamentais.  “No PCC, não há uma liderança central com quem um governador ou um senador possa sentar e negociar, de modo geral. É ‘cada um no seu corre’, sintonizados pela facção. Por outro lado, sem as políticas de segurança que temos, e sem a corrupção de parte das polícias, os mercados ilegais não funcionariam. O que existe, então, é uma miríade de pequenos acordos, locais, de base, mediados por dinheiro, que permitem que os negócios criminais continuem acontecendo. Como o professor Michel Misse nos ensinou, sempre que existe um mercado ilegal, há um mercado de proteção associado a ele. Policiais, agentes de fiscalização e outros agentes públicos, em toda a América Latina, recebem dinheiro para permitir que os mercados ilegais - tráfico de drogas, armas, contrabando, roubo e furto de veículos etc. – funcionem”.

O pesquisador não acredita que exista no Brasil uma espécie de “cultura do crime”.  “Nos meus trabalhos não uso o termo cultura do crime. O que há no Brasil é uma presença massiva dos mercados ilegais, e dos códigos de funcionamento desses mercados, na vida urbana. Há crimes praticados por todas as classes, como o tráfico de drogas, a lavagem de dinheiro, a corrupção, mas o crime violento - roubos de veículos, residências, comércio, empresas, bancos, sequestros - é praticado pelos mais pobres. Quem o pratica, quase sempre, é contratado para fazê-lo ou está empreendendo uma ação por dinheiro. A gente sempre diz que os italianos migraram para o Brasil porque havia terra e trabalho, que os nordestinos migraram para São Paulo porque havia emprego industrial, mas não pensa que milhões de jovens pobres migraram para atividades ilegais porque havia trabalho e renda ali. Quando os mercados de droga transnacionais aterrissaram no Brasil, entre os anos 1980 e 90, explode nossa ‘violência urbana”, reflete ele.

 O escritor também aponta que a busca de um inimigo e a deflagração de uma “guerra” por parte do Estado na política de segurança apenas aumenta a violência no Brasil. “Há duas formas de pensar o crime: ele é um ato contra a lei, cometido por um cidadão que deve ser responsabilizado por ele; ou o crime é a manifestação da ameaça à cidadania, vinda de um inimigo. Conceber da primeira forma nos leva a um Estado de direito. Conceber da segunda maneira nos leva à guerra. No Brasil, faz ao menos quarenta anos que pensamos o crime como a manifestação de um inimigo. Ao invés de combater atos criminais, combatemos pessoas. Por isso há quarenta anos a segurança pública no país só tem piorado”, conclui ele.

 

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