O primeiro PM trans de São Paulo

Desde 2015 na corporação, o soldado Henrique fez uma transição de gênero tranquila e diz que não sofre preconceito

Publicado em 28/04/2019 07:24:02 | Por: REVISTA ISTOÉ

O primeiro PM trans de São Paulo
DIFICULDADES Mudança de gênero envolveu dois anos de terapia e receio de perder o emprego na Polícia Militar (Crédito: Reprodução)

 

Vicente Vilardaga

Pela primeira vez em sua história de 188 anos, a Polícia Militar de São Paulo tem um soldado transexual. Emanuel Henrique Lunardi Ferreira, o soldado Henrique, de 24 anos, entrou na corporação em 2015, visualmente como mulher. De lá para cá, com ajuda psicológica, apoio familiar e a tolerância da própria corporação, Henrique assumiu sua condição de homem trans. Foi um processo gradual, que envolveu dois anos de psicoterapia e muita pesquisa para entender os direitos das pessoas trans e o regulamento da PM em relação a esse assunto.

Como acontece na sociedade, legalmente não existe nenhuma restrição para policiais que passam pela mudança de sexo exercer a profissão. Hoje ele trabalha em Ituverava, na região de Ribeirão Preto, no interior do Estado, e se divide entre o trabalho operacional em que faz o policiamento ostensivo na cidade e também presta serviços administrativos e de atendimento à população. Henrique é considerado um excelente policial e se sente envolvido com seu trabalho. “Sinto-me realizado profissional e pessoalmente”, afirma. “Nunca reclamo das funções que preciso executar e das coisas que acontecem”.

Henrique, que nasceu em Iracema do Oeste, no Paraná, teve uma infância de classe média sem traumas e relativamente tranqüila. Sempre foi muito ligado a brincadeiras e esportes considerados mais comuns pelo gênero masculino.

A única coisa que lhe incomodava era não poder escolher o que vestir e nem definir seu corte de cabelo. Sua mãe e a irmã mais velha cuidavam de Henrique, que então se chamava Emanoely, e o vestiam e maquiavam. “Na verdade, tudo isso é uma construção social. É o que a sociedade define. Considerando essa construção social sempre estive mais à vontade brincando com meninos do que com meninas”, lembra. Quando prestou no concurso para a PM, Henrique cursava o quarto ano de engenharia da computação. Trancou o curso e foi seguir o que acreditava ser sua vocação. Percebeu que tinha um forte senso de justiça e que era de sua natureza trazer segurança para as pessoas, protegê-las. “Começou no seio familiar, em querer cuidar da minha família, dos meus amigos, em querer trazer segurança para quem estava perto de mim”, lembra. “Comprava briga pelos meus irmãos, não deixava ninguém desmerecer deles”.

Apoio familiar

“Eu tive uma fase da minha vida em que tive que assumir a homossexualidade porque acreditava que era mulher”, lembra Henrique. Ele não tinha conhecimento das pessoas trans, não sabia o que era transgênero, e aos 17 anos percebeu que gostava realmente de garotas. Mas tinha a sensação de que fazia algo errado. Levou o assunto para a família e pediu ajuda. No início sentiu algum preconceito, que foi sendo superado ao longo do tempo. Hoje, Henrique se sente confortável para levar alguém com quem esteja relacionando para dentro de casa. E seus pais o chamam pelo novo nome. “Cresci com a imagem de um homem e uma mulher cisgêneros casando, tendo filhos e construindo uma família. Para mim essa era a linha que tinha que seguir. Só mais tarde tive liberdade suficiente e conhecimento para abrir minha visão e minha cabeça e acreditar que o que eu sentia era certo”, afirma.

 

Em 2017, encorajado, depois de dois anos com uma terapeuta particular, que lhe deu certeza sobre a identidade de gênero masculina, Henrique resolveu procurar o psicólogo da PM para ter informações sobre a transição de gênero, inclusive sobre a mudança do nome social e a terapia hormonal. Ainda não havia nenhum caso como o seu na policia paulista e o soldado temia ser exonerado do cargo e excluído da corporação.

O psicólogo disse que não via problema algum com seu caso e o orientou a fazer um documento para o comandante da companhia tratando de sua questão de gênero. Ele fez. “A instituição é legalista, ela prega o que a lei determina, o que está no regulamento e o que é meu direito foi tranquilamente autorizado. A polícia não me barrou e nem criou qualquer tipo de empecilho”, diz. Apesar disso, todo o processo envolveu algum sofrimento. Henrique tinha a sensação de que algo podia dar errado e ficava agoniado com a espera. Os trâmites que permitiram sua conversão duraram cerca de um ano.

Dentro da instituição, o soldado não sofreu qualquer tipo de preconceito e ninguém veio dar qualquer opinião sobre sua vida. “Acho que quando as pessoas vêem que a gente está executando nosso trabalho de maneira profissional, mostrando capacidades, as particularidades pessoais acabam passando despercebidas”, diz. “Ser transgênero é uma particularidade minha que não altera em nada o meu desempenho”.

TRANSFORMAÇÃO O soldado Henrique antes da transição para o gênero masculino, quando ainda era a soldada Emanoely (Crédito:Divulgação)

“As maioria das pessoas não sabe diferenciar identidade de gênero de orientação sexual” Emanuel Henrique, soldado da PM

Orientação sexual

Henrique admite que antes de compreender sua própria situação e descobrir porque o corpo de mulher o incomodava tanto, ele próprio tinha preconceito com as pessoas trans. E ele atribui esse preconceito à falta de informação. Para o soldado, em geral as pessoas são preconceituosas com aquilo que desconhecem. Às vezes, as pessoas fazem comentários nas mídias sociais do soldado relacionados à orientação sexual, acreditando que se trata da mesma coisa que identidade de gênero. São questões distintas, que, segundo Henrique, a maioria das pessoas não sabe diferenciar. “Elas não sabem que a identidade de gênero está ligada ao que penso, ao meu cérebro e não à minha orientação sexual, por quem eu sinto atração”, explica. “Na verdade, aceitar quem eu sou me tornou uma pessoa mais feliz no dia a dia, no convívio social e no trabalho”.

 

Na Polícia Militar do Estado de São Paulo 87% dos soldados e oficiais são do sexo masculino 

É de se compreender que na Polícia Militar do Estado de São Paulo haja mais soldados homens que mulheres. Afinal, demorou para que as mulheres saíssem de suas funções domésticas para ocuparem o mercado de trabalho. Além disso, os homens são tradicionalmente mais indicados para ocuparem postos que exigem mais força física. Atualmente a PM SP conta com aproximadamente 71.882 soldados homens em seu quadro efetivo, e 10.424 mulheres

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