Dia Mundial do Rádio: restaurador gastou até dinheiro do 1º casamento para ter aparelho dos sonhos

Morador de São Carlos (SP) preserva 540 rádios antigos e sonha em criar museu.

Publicado em 14/02/2018 07:35:37 | Por: G1 São Carlos e Araraquara

Dia Mundial do Rádio: restaurador gastou até dinheiro do 1º casamento para ter aparelho dos sonhos
Indalecio Alves de Oliveira ao lado da mulher que o ajuda na oficina em São Carlos (Foto: Fabio Rodrigues/G1)

 

O rádio resiste aos avanços tecnológicos e mantém fãs e colecionadores. Em São Carlos (SP), um deles já chegou a investir o dinheiro da festa do primeiro casamento para adquirir o aparelho dos sonhos.

No Dia Mundial do Rádio, comemorado nesta terça-feira (13), O G1 conversou com o restaurador que preserva 540 aparelhos em uma oficina, vindos de várias partes do Brasil, e que sonha em criar um museu.

  
 
Restaurador de São Carlos mantém coleção de 540 aparelhos de rádio

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O locutor Indalecio Alves de Oliveira, de 41 anos, contou que em 1999 pagou o equivalente a R$ 13 mil por um aparelho de 1938 conhecido por Scott, fabricado por Ernest Humphrey Scott.

"Foi feito sob encomenda do filho do conde Francesco Matarazzo, que exigiu ao fabricante norte-americano o uso do jacarandá-da-bahia para fazer a parte estética de madeira", contou o restaurador.

 
Restaurador com aparelho que quase acabou com o casamento (Foto: Arquivo pessoal)

Restaurador com aparelho que quase acabou com o casamento (Foto: Arquivo pessoal)

Há tempos Oliveira procurava por um modelo semelhante. Cerca de 40 dias antes de se casar, soube da existência de um nos fundos de uma chácara em Barretos (SP). Na época, o dono pediu R$ 13 mil e ele fechou negócio.

"O duro foi contar para a noiva que não teria mais a festa porque eu comprei um rádio. Foi uma semana de choro e quase desistência, mas depois resolvemos conversar, casamos e fizemos uma comemoração mais simples", contou o locutor que hoje já está em um novo relacionamento.

 
 
 
Restaurador de São Carlos reúne 540 aparelhos em coleção

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No mês passado, ele conseguiu comprar outro rádio que também perseguia desde os 9 anos. O modelo com a imagem de Nossa Senhora Aparecida é de 1960 e aparecia nas revistas de eletrônica do Instituto Universal Brasileiro. Esse, porém, conseguiu por um valor mais modesto: R$ 500.

 
Restaurador comprou rádio com imagem de Nossa Senhora Aparecida (Foto: Fabio Rodrigues/G1)

Restaurador comprou rádio com imagem de Nossa Senhora Aparecida (Foto: Fabio Rodrigues/G1)

Conserto e restauração

Há mais de 30 anos, Oliveira dedica a vida no restauro de rádios. O trabalho artesanal requer conhecimento, dedicação e paciência. É na oficina junto com a mulher, Aline Pires Santos, que ele usa a criatividade para recuperar aparelhos, muitas vezes em péssimo estado.

O processo não é simples, restaurar um rádio pode levar até cinco anos. Os valores variam de R$ 600 a R$ 12 mil.

"É um trabalho demorado e totalmente artesanal. Desde a confecção dos botões, desenho de um painel apagado, a reconstrução de uma caixa que chega quebrada, personalização ao gosto do dono ou como era de fábrica", contou Oliveira.

Segundo ele, o restauro é um resgate de memórias."A pessoa tem todo um histórico familiar por meio do aparelho, há rádios que marcaram a infância. Quando você coloca para funcionar, a pessoa até chora de emoção. Gosto muito do momento que entrego o trabalho concluído", contou.

Oliveira disse que já recebeu aparelhos de várias regiões do Brasil e também da Argentina, Uruguai, França e Estados Unidos. Na oficina, ele faz a parte de usinagem, marcenaria, pintura e polimento. Tratamentos químicos mais elaborados são terceirizados. Para ele, a maior dificuldade na restauração é recriar as peças mecânicas.

"Eu já fiquei 19 horas em um torno e fresna para fazer um único botão de rádio porque ele era muito desenhado. Achei que tinha ficado perfeito até ir a casa de uma amiga que trabalha com artesanato. Ela fez um molde de silicone, usou resina e saiu um botão igual. Então é isso, a gente vai aprendendo", disse.

Encanto pelo rádio

Formado em direito e engenharia elétrica, Oliveira se encantou pelo rádio aos 9 anos quando o pai, aposentado da Polícia Militar, montou uma oficina técnica. Ele observava como era feito conserto dos aparelhos e logo começou a aprender a profissão. Aos 13 anos, o jovem visitou uma emissora de rádio pela primeira vez e pouco tempo depois passou a atuar também como locutor.

Dos 540 aparelhos que mantêm hoje,o restaurador afirmou que pelo menos 150 funcionam. Os demais necessitam de algum tipo de retoque. Um dos mais antigos é um rádio Galena de 1917, ainda com o auto-falante original.

O locutor sonha em criar um museu para disponibilizar seu acervo, mas precisa de patrocínio. Para tentar arrecadar verba, ele divulga por meio da rede social a ideia de uma exposição itinerante. Para ele, a paixão pelo rádio é eterna.

"Tudo o que você imaginar o rádio foi pioneiro: novelas, jornalismo, notícias de guerra, programas humorísticos, de calouros. Ele sempre foi a companhia ideal. O rádio reunia a família, diferente da internet que afasta. O rádio ainda está na memória e por isso não podemos deixar acabar", disse.

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