Do Cidade Aracy para o mundo, Tutty, o gênio dos desenhos

Contra tudo e contra todos, garoto pobre da periferia driblou os obstáculos se tornou o maior e mais talentoso chargista de São Carlos

Publicado em 09/07/2019 08:05:27

Do Cidade Aracy para o mundo, Tutty, o gênio dos desenhos

 

Marco Rogério

Ele poderia ter sido apenas mais um garoto pobre da Zona Sul de São Carlos retratado como um personagem de alguma história triste registrada nos anais da polícia ou do cemitério como tantos outros. Ele nasceu, cresceu e vive no Cidade Aracy, bairro carente da “Capital da Tecnologia”, cidade que gera riquezas, mas que também a concentra nas mãos de poucos e abandona seus filhos à própria sorte.

Num cenário de incertezas e grandes desafios, o desenho surgiu na via de Agenor da Silva logo que era criança. Ele era um menino diferente retraído, prodígio e eufórico ao mesmo tempo. As dificuldades para se entrosar com os jovens de sua idade deixaram seus pais preocupados. Sua mãe o levava a benzedeiras porque achava que o menino era “diferente” e até “meio retardado”.

Pois é! A linha tênue que separa o gênio do louco também perpassou a vida de Tutty. Aliás, vida que se confunde com as dos desenhos, como se ele próprio, o Tutty não tivesse nascido de um ventre feminino, mas tivesse, ele próprio sido um desenho que ganhou vida própria depois de sair do papel.  “Eu comecei a desenhar desde que era um feto, eu acho. Eu brincava com as pessoas dizendo que se abrissem a barriga da minha mãe e olhassem direito viriam alguns desenhos lá que eu fiz enquanto esperava os nove meses pra nascer”.

Aos 15 anos, Tutty começou a viver do desenho. Autodidata, foi formado na Dificuldade da Vida e tem um trabalho muito melhor do que muitos artistas com título de PHD. Seus traços são inconfundíveis, seja nos letreiros, desenhos ou nas charges.

Em 1997 o talento do artista o levou para o poderoso diário A Tribuna, que pertencia ao polêmico ex-prefeito Rubens Massúcio Rubinho. Como o jornal fazia oposição explícita ao prefeito de então, João Otávio Dagnone de Melo, Tutty foi escalado para fazer charges diárias satirizando a sua gestão. Seu trabalho foi um grande sucesso.

“Na tribuna foram quatro anos. Os melhores da minha vida. Naquela época eu sonhava em produzir quadrinhos, mas, na verdade, o que eu mais queria é que meus amigos da escola vissem meus desenhos. Quando minha primeira charge foi publicada no jornal, em 1997 ,eu peguei aquele desenho impresso e entrei no ônibus fingindo que tava lendo, mas eu queria que as pessoas vissem aquele desenho. Logico que eles não tinham noção que o dono daquele trabalho impresso no jornal era eu, era u desenho do Tutty. Chorei muito em casa nesse dia. Eu tava fazendo tudo que amava, e tava ganhando pra isso”, relata ele.

NO JORNALISMO POLÍTICO - Ao lado de jornalistas políticos de renome, como Valdeci Gobbo, Marco Rogério, Renato Chimirri, Vanessa Gurian e Adilson Fraga Júnior, Tutty enriqueceu seus conhecimentos. Então com apenas 17 anos, o garoto temia ser alvo de processos judiciais, o que nunca aconteceu.

A partir daí, o aluno da vida se tornou professor. Ele ensinou muitos a desenhar, pintar, enfim, manobrar as artes das tintas, das cores, dos lápis, canetas e pinceis. Um de seus melhores alunos foi Leandro Amaral, o hoje vereador e pré-candidato a prefeito, Leandro Guerreiro, que se orgulha em chamar Tutty de “mestre”.  O próprio Leandro é fruto dos paradoxos da periferia. Seu pai é traficante de drogas e está preso. Enquanto isso ele é político eleito pelo povo e sua irmã é policial militar.

“Teve ocasião que eu estava fazendo um trabalho e chegava um moleque perto de mim e dizia: -Pô ,Tutty, você tem um trampo pra mim? Eu picho muro por aí ,mas quero trabalhar. E eu pegava o moleque e o ensinava pra ganhar dinheiro e não a pichar  Quase todos esses moleques estão mortos, presos ou loucos. É muito frustrante e triste”, lamenta o nosso entrevistado.

Artista de periferia por convicção, o desenhista e chargista deixa seu trabalho impresso nos muros e fachadas de lanchonetes, restaurantes, estúdios de tatuagem, supermercados e outros tipos de comércio. São a marca indelével do talento que brotou dos subúrbios esquecidos de São Carlos e que deixa a cidade mais bonita.

Filho de Dona Floripes e Seo Agenor, que já morreram, Tutty herdou do pai o nome.  E só passou a gostar dele quando soube que Agenor de Miranda Araújo Neto era o nome de Cazuza, um dos grandes ícones do rock mundial.  O apelido Tutty foi dado pelo irmão, que também já morreu.  Atualmente, o artista é casado com Márcia e é pai de Joey, de 17 anos, de outro relacionamento.  Com 39 anos, Tutty está no auge de sua carreira e segue sua missão de tornar este mundo mais alegre, mais colorido e mais bonito. Quando anunciamos que íamos fazer esta matéria com ele pedimos a Tutty que fizesse uma charge dele próprio desenhando. O resultado você pode ver neste Portal. Além disso, trouxemos uma verdadeira galeria de trabalhos deste grande intelectual orgânico e artista nato.

 

 

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